Eu demorei para entender que não foi um dia…
Não teve uma derrota específica, nem um placar que me quebrou. Sempre me considerei forte mentalmente. Desde muito nova, essa era uma característica minha. As pessoas falavam que eu era fria. E quase sempre isso vinha como crítica. Como se não demonstrar emoção fosse um defeito. Como se controlar o corpo fosse sinal de falta de paixão. Eu cresci ouvindo isso.
Em 2020, já treinando na Itália, comecei a ouvir outra coisa: que eu precisava gritar mais, me impor mais, mostrar mais emoção na pista. De repente, aquilo que sempre foi minha força parecia estar errado. E aí começou uma confusão silenciosa dentro de mim. Eu estava jogando bem, mas começando a duvidar de quem eu era.
Eu faço psicóloga desde os meus 15 anos. Sempre levei o lado mental a sério. Mas foi durante o período de classificação olímpica para Paris, em 2023, que eu percebi que precisava mudar o meu jogo mental em um outro nível.
Externamente, era pressão por ranking, técnico falando demais, dirigente opinando demais, ambiente hostil em algumas
competições nacionais, tentativas de criar rivalidade onde não existia. Internamente, eu estava ansiosa, dormindo mal, preocupada com o que os outros estavam pensando. Já lidando com lesão. Já me superando fisicamente. E ainda assim sentindo que precisava provar algo o tempo inteiro.
Eu estava competindo bem. Mas não estava feliz. E o pior: eu estava me desconectando do motivo pelo qual eu amo fazer esgrima.
Em 2023, comecei um trabalho específico de treinamento mental com o Nicholas Pasqualetto. Não era terapia. Era preparação mental para alta performance. Estrutura, intenção, clareza. Foi diferente de tudo que eu já tinha feito. Não foi uma virada mágica. Não foi imediato. Foi processo. Foi constância. Foi continuar mesmo quando o resultado ainda não vinha.
Eu voltei a viver meu objetivo todos os dias. Não só a meta de classificar para Paris, mas o que eu quero construir com o esporte. O impacto que eu quero deixar. Eu parei de jogar reagindo ao ambiente e comecei a jogar por convicção.
No Cairo, quando fiz Top 32 em uma Copa do Mundo pela primeira vez, o resultado foi importante. Mas mais importante foi a sensação. Pela primeira vez em muito tempo, eu acreditei em mim de verdade. Não estava tentando ser diferente. Não estava tentando provar nada. Estava jogando como eu sou.
Talvez seja por isso que hoje eu também atuo como treinadora mental. Porque eu vivi na prática o que a preparação mental estruturada pode fazer. Não foi só sobre performance. Foi sobre reconectar com propósito. E quando você reconecta com propósito, você compete diferente.
Mudar o jogo mental no esporte não é virar outra pessoa. Não é gritar se você não é de gritar. Não é criar uma personagem para agradar treinador, dirigente ou torcida. É ter autoconhecimento suficiente para entender quais são seus pontos fortes e usá-los com intenção. É parar de lutar contra a própria identidade.
Se eu tivesse 18 anos hoje, eu diria para mim mesma: calma. A sua frieza não é defeito. É característica. Use isso a seu favor. Treine muito, sim. Mas não deixe a opinião dos outros moldar quem você é na pista.
Melhorar a mentalidade no esporte não é sobre motivação. É sobre identidade. É sobre entrar na competição sabendo quem você é, o que você faz bem e por que você está ali. Preparação mental no alto rendimento não é acessório. É estrutura invisível de performance.
O Nicholas teve papel fundamental em me mostrar que quem eu era, já era suficiente. Eu não virei poderosa depois do trabalho mental. Eu já era. E é exatamente isso que eu faço hoje. Eu não crio atletas diferentes. Eu não invento versões novas. Eu ajudo cada um a reconhecer a própria potência, organizar a mente e competir com identidade.
Porque, no alto rendimento, o talento raramente falta. O que falta, muitas vezes, é acreditar que ele já é suficiente.
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