
Treinar fora do Brasil muda o atleta. Mas não do jeito romantizado que muita gente imagina. Desde meus 14 anos viajo para treinar fora do país. Primeiro em períodos curtos, depois mais longos. Com 17 anos fui morar na França e com 24 na Itália. Mas uma mudança grande só vem depois de muita experiência, de errar de acertar e ter o acompanhamento das pessoas certas.
Aqui na Itália existe uma expressão que eu escuto bastante:
“non mangia il panettone”. Literalmente, é “não come o panetone”. Na prática, quer dizer: não vai aguentar até o fim. Vai desistir no caminho. E essa frase explica muito bem o que acontece quando alguém vai treinar fora sem estar pronto.
Você é só mais um e ninguém se importa se você liga ou não
Fora do Brasil, ninguém te trata como promessa. No Brasil, muitos atletas ainda são protegidos por rótulos: promessa, talento, futuro.
Fora, isso não existe. Você entra na sala e é só mais um. Ninguém adapta o treino. Ninguém reduz a intensidade. Ninguém explica duas vezes. Ou você acompanha, ou fica para trás. Aqui, potencial não impressiona. O que conta é comportamento, constância e entrega diária. O treino começa muito antes da pista com 1. Pontualidade 2.Organização 3. Aquecimento bem feito. 4. Foco.
Ah, ninguém vai te cobrar nada no final, o problema vai ser seu. Isso tudo que falei ali em cima, não é diferencial e sim o mínimo esperado. O atleta que chega atrasado não é visto como “indisciplinado”. Ele simplesmente não é levado a sério. E isso ensina algo importante: rotina não é rigidez.
Técnica sem intenção não sustenta jogo
Uma diferença enorme que vejo fora do Brasil é essa: a técnica sempre vem acompanhada de intenção. Cada ação tem um motivo. Cada decisão conversa com o contexto do assalto. Não é repetir movimento significa entender o jogo. Sem isso, o atleta até treina bem…mas não sustenta quando o ritmo sobe.
O mental aparece rápido. E sem filtro.
Treinar fora expõe tudo. Cansaço, frustração. erro, comparação e solidão. Não tem colo, não tem discurso motivacional e não tem desculpa externa. Ou o atleta aprende a se regular emocionalmente, ou o corpo responde mal. É aqui que muitos “bons de treino” quebram e onde outros crescem.
Ambiente molda comportamento (para o bem ou para o mal)
Quando todo mundo ao seu redor treina sério, compete sério e vive como atleta, você se ajusta. Não por pressão. Mas por coerência. O ambiente ensina o padrão.
O ponto mais importante: Ir pra fora não resolve problema!
Isso precisa ser dito com muita responsabilidade. Ir treinar fora não salva atleta despreparado. Não corrige falta de base, não resolve desorganização emocional e não cria maturidade do nada. Pelo contrário, treinar fora expõe tudo isso muito mais rápido.
Por isso, quando um atleta nunca teve experiência fora, é preciso muito cuidado. Sem preparo técnico, mental e de rotina,
o risco não é “não evoluir” e sim de quebrar. É aí que entra o famoso “non mangia il panettone”. Não porque o atleta é fraco. Mas porque foi colocado num ambiente que acelera falhas antes de consolidar estrutura.
Por isso, hoje quando eu levo um atleta para fora, o foco não é ‘treinar mais forte’. É garantir que ele tenha base técnica, mental e de rotina para crescer sem se perder
O maior aprendizado da alta performance está no comportamento. Treinar fora não é sobre viajar. É sobre estar pronto para crescer sem se perder no caminho e isso precisa ser feito com critério, leitura e responsabilidade. Porque fora do Brasil, o jogo é o mesmo. Mas a cobrança interna é muito maior.
E se tiverem mais dúvidas, podem perguntar lá no direct: @biabulcao no Instagram.

